Fio B da Lei 14.300 ano a ano: como calcular o impacto na economia do cliente
Desde 2023 a energia que o sistema injeta na rede paga uma parcela da tarifa de distribuição, o Fio B. A parcela cresce todo ano até 2029. Quem faz proposta ignorando isso vende uma economia que a conta de luz vai desmentir no segundo mês. Este guia mostra a rampa, a fórmula, a regra da taxa mínima da distribuidora e um exemplo com números reais.
O que é o Fio B e por que ele entra na proposta
A tarifa que o cliente paga tem duas partes grandes: a energia (TE) e o uso do sistema de distribuição (TUSD). Dentro da TUSD, o Fio B remunera a rede da distribuidora. Antes da Lei 14.300, o crédito de energia injetada compensava a tarifa inteira. Com a lei, o crédito compensa a energia e o restante da TUSD, mas o Fio B passa a ser cobrado sobre cada kWh compensado, numa rampa progressiva.
Na prática: o cliente continua gerando a mesma energia, só que uma fatia do valor de cada kWh injetado deixa de ser abatida. É essa fatia que a proposta precisa descontar da economia.
A rampa, ano a ano
A regra de transição da Lei 14.300 (art. 27) define a fração do Fio B cobrada sobre a energia compensada:
| Ano de referência | Fração do Fio B cobrada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | regra definida pela ANEEL (o ionluz calcula com 100% do Fio B) |
Dois pontos que o integrador precisa dominar. Primeiro, a rampa vale para quem protocolou o pedido de acesso na distribuidora a partir de 7 de janeiro de 2023. Quem já tinha o sistema, ou protocolou até 6 de janeiro de 2023, segue com a compensação integral até o fim de 2045. Segundo, a fração é aplicada sobre a energia compensada, ou seja, a que foi injetada na rede e depois usada como crédito. A energia consumida na hora em que é gerada (autoconsumo) nunca paga Fio B.
A fórmula que a proposta usa
O custo mensal do Fio B, em reais, é:
custo Fio B = kWh compensados × tarifa (R$/kWh) × fração do Fio B na tarifa × fração do ano
- kWh compensados: geração do mês menos o autoconsumo instantâneo. Sem medição do perfil da casa, o ionluz assume 30% de simultaneidade no residencial: 30% da geração é usada na hora, 70% vai para a rede e volta como crédito.
- Fração do Fio B na tarifa: quanto do valor cheio do kWh é Fio B. Varia por distribuidora. O motor usa 28% como referência de mercado.
- Fração do ano: a linha da tabela acima para o ano em questão.
A taxa mínima da distribuidora e o Fio B: vale o maior
O Fio B e a taxa mínima da distribuidora (o custo de disponibilidade da REN 1.000: 30 kWh em ligação monofásica, 50 em bifásica, 100 em trifásica) nunca entram somados na conta. Pela REN 1.059/2023, a parcela de consumo da conta de quem compensa energia é o maior destes dois valores: a taxa mínima, na tarifa cheia, ou a energia que ainda veio da rede somada ao Fio B do que foi compensado. O motor do ionluz faz essa conta em cada ano da projeção, e o exemplo abaixo mostra os dois valores lado a lado.
Exemplo: 5 kWp em Curitiba
Os números vêm da página energia solar 5 kWp em Curitiba, calculada pelo mesmo motor das propostas:
- Consumo da casa: cerca de 590 kWh por mês, na ligação bifásica. É o consumo que a página atende com 5 kWp: a geração mais os 50 kWh da taxa mínima.
- Geração no primeiro ano: cerca de 540 kWh por mês (irradiação de 4,55 horas de sol pleno, taxa de desempenho de 0,78).
- Tarifa residencial B1 de referência do Paraná, com tributos: 0,96 R$/kWh (a distribuidora de Curitiba é a Copel).
- Autoconsumo de 30%: 162 kWh usados na hora; 378 kWh injetados e compensados; 50 kWh ainda vêm da rede.
Custo do Fio B por mês, com a tarifa de hoje:
| Ano | Fração | Conta | Fio B no mês |
|---|---|---|---|
| 2026 | 60% | 378 × 0,96 × 0,28 × 0,60 | cerca de R$ 61 |
| 2027 | 75% | 378 × 0,96 × 0,28 × 0,75 | cerca de R$ 76 |
| 2028 | 90% | 378 × 0,96 × 0,28 × 0,90 | cerca de R$ 91 |
| 2029 | 100% | 378 × 0,96 × 0,28 × 1,00 | cerca de R$ 102 |
No primeiro ano, a regra compara os dois valores. A taxa mínima da ligação bifásica dá 50 × 0,96 = R$ 48. A energia que ainda vem da rede, os 50 kWh que o dimensionamento deixa de fora, dá 50 × 0,96 = R$ 48, e com o Fio B de R$ 61 chega a R$ 109. Vale o segundo, o maior: a conta com o sistema fica em cerca de R$ 109 por mês, contra R$ 567 sem ele, e a economia do primeiro mês fica em R$ 458.
O Fio B pleno de 2029, com a tarifa de hoje, come em torno de 20% do valor da energia que o sistema gera. É por isso que a proposta mostra a economia ano a ano. Na faixa de preço de referência de R$ 11.600 a R$ 14.200, o retorno fica em 2,1 a 2,5 anos.
O motor ainda aplica o reajuste anual da tarifa (7% ao ano na referência) e a degradação dos módulos (0,5% ao ano). O reajuste aumenta a economia em reais; a degradação e a rampa do Fio B diminuem. A proposta que o cliente recebe já traz as três curvas somadas.
Os três erros que fazem a economia não fechar
1. Prometer "conta zero"
Mesmo com geração igual ao consumo, a conta nunca zera. Para quem entrou a partir de 2023, a distribuidora cobra o maior destes dois valores: a taxa mínima da distribuidora (30 kWh em ligação monofásica, 50 em bifásica, 100 em trifásica) ou o Fio B do que foi compensado somado à energia que ainda veio da rede. Uma proposta que mostra a conta futura zerada perde a confiança do cliente na primeira fatura.
2. Calcular o Fio B sobre a geração inteira
O Fio B incide sobre a energia compensada. Aplicar sobre a geração total superestima o custo e faz o sistema parecer pior do que é. Aplicar sobre nada (o erro mais comum) faz o contrário. O certo é separar autoconsumo de injeção.
3. Congelar o ano
Uma proposta feita em 2026 com 60% do Fio B para os 25 anos inteiros erra para cima a partir de 2027. A rampa precisa avançar ano a ano no cálculo, e a partir de 2029 vale a regra que a ANEEL definir (o ionluz calcula com 100%).
Checklist para a sua proposta
- Separar autoconsumo de energia compensada (30% é uma boa referência residencial sem medição)
- Aplicar a fração do ano da rampa, ano a ano até 2029 (o ionluz calcula com 100% a partir daí)
- Usar a fração do Fio B da distribuidora quando você a conhece (o ionluz calcula com 28% em toda proposta)
- Na conta futura, o maior entre a taxa mínima da distribuidora e a energia da rede somada ao Fio B
- Mostrar a economia ano a ano, com reajuste e degradação, em vez de um número único
No ionluz tudo isso já está no motor: a rampa, a simultaneidade, a regra da taxa mínima da REN 1.059, o reajuste e a degradação entram no cálculo de toda proposta, e a capa avisa quando um sistema não se paga em 25 anos. Veja como a proposta é gerada.
Fontes: Lei 14.300/2022, arts. 26 e 27 (a rampa e o marco do protocolo); REN ANEEL 1.000/2021, art. 655-I, incluído pela REN 1.059/2023 (o maior valor). Confira o texto vigente antes de citar na proposta.
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